Vida & Empatia

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PARA A MÃE DA CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL


Querida mãe.
Estou escrevendo para pedir desculpas.
Desculpas pelo meu discurso simplista que diz que todas as crianças são iguais.
Desculpas pelo discurso falso que afirma que não há diferenças entre uma criança com deficiência  e outra criança dita típica a não ser o tempo para se chegar aos mesmos marcos de desenvolvimento.
Desculpas pelo discurso vazio que afirma que a convivência com outras crianças não só é necessária como também benéfica.
Discurso egoísta, esse o meu.
Simplista porque ao proferi-lo, afirmo que você é igual a mim.
Falso porque tudo o que ele garante é que você precisa só de um pouquinho mais de tempo, um tempo "ocioso" (por favor, atente para as aspas) que o corre-corre da vida nega a todas nós. Vazio porque mães como eu talvez não queiram que nossos filhos comuns se misturem com o seu.
Egoísta porque eu a nivelo a mim, quando na verdade estou muito longe de ser alguém como você.

Mas, também não sou parte do grupo que diz que você é especial.
Sabe por que?

Porque não gostaria de ter essa especialidade pra mim.
Sua vida é difícil.
Você luta contra um mundo feito de pessoas como eu desde o dia que seu filho nasceu. E você não está em posição de igualdade, nosso número é muito maior do que o seu.
Essas pessoas, ao te chamarem de especial, tiram dos ombros a responsabilidade de caminhar ao seu lado.
Essas pessoas, que ao te chamarem de especial, te colocam uma capa de super mulher que, no fundo, a torna invisível. Invisibilidade esta que se manifesta quando resolvemos que cabe única e exclusivamente a você batalhar por um mundo melhor para o seu filho, até porque partem do pressuposto de que você se basta e não precisa de mais ninguém,

Essas pessoas, que ao te chamarem de especial, esquecem que você tem sonhos guardados e que evita pensar sobre eles para não mais sofrer.
Essas pessoas, que ao te chamarem de especial, lá no fundinho o fazem por pena e para tentar, de alguma forma, te confortar.

Ao contrário de sentir pena, quero que você saiba que eu a admiro.
Admiro a sua resiliência. A vida bate, bate, bate em você e você está sempre pronta para mais uma batalha.

Admiro a sua dedicação e a sua doação ao seu filho. A admiro por estar disposta a andar sempre mais um pouquinho para garantir que seu filho tenha acesso àquilo que é seu por direito.

Admiro a sua coragem de enfrentar quem quer que seja para que um mundinho aparentemente melhor venha a ser possível.

Admiro, mesmo no meio de tanta tribulação, o seu sorriso é fácil, e seu abraço apertado. Atitudes que mostram que você acredita que, mesmo em meio a incontáveis dificuldades, você acredita que um mundo melhor é possível.

Quero que saiba que quero em meus ombros a responsabilidade de caminhar ao seu lado e a te ajudar nas batalhas. Quero te ajudar a tirar a capa da invisibilidade e a assumir, a seu lado, a batalha por um mundo melhor para o seu filho e para o meu também. Eu tenho certeza de que você não se basta e que precisa, sim de mim e de outras mães como eu. Quero que você tire seus sonhos da gaveta e que me permita sonha-los com você, sofrer com você para poder me alegrar também com você. A sua alegria é genuína, talvez eu até a inveje por isso.

Não tenho pena de você. Tenho pena de mim, por ser tão superficial.

Ah, eu realmente acredito que as crianças são todas iguais. O que as estraga são as mães como eu.

Peço que me perdoe. E que me dê a oportunidade de caminhar ao seu lado. Você tem muito a me ensinar.

Texto de Mônica Xavier