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Ao médico da UTI neonatal                                                                                  Texto de Mônica Xavier

Querido médico,


Obrigada por abrir seu coração e me receber num dos momentos de maior fragilidade da minha vida.

Obrigada por fazer por mim o que eu mais gostaria de ter feito e não pude: cuidar do meu bebê.

Obrigada por estar sempre presente nas horas de incerteza, de agonia e desespero.


Tenho certeza de que você se faz de forte e até de indiferente algumas vezes porque é humanamente impossível carregar nas suas costas as dores de todas as mães cujos bebês passam e já passaram por suas mãos e seus cuidados.


Obrigada por seus olhos que lacrimejaram junto com os meus, e por muitas vezes virar as costas para que eu não o visse chorar também.

Obrigada por ser parte do milagre da vida sem se esquecer que você não é Deus, por isso não é todo poderoso.

Obrigada por chamar seus colegas quando não sabia o que fazer, e por ser humilde em me contar que precisou de mais alguém que te ajudasse no cuidado para com o meu filho.


Também gostaria que me desculpasse.

Perdoasse a minha impaciência pela imensa quantidade de noites não dormidas.

A minha agressividade por ter passado dias inteiros mal acomodada ao lado da incubadora sem saber bem o que fazer.

Meu mau humor por ter ficado sentada em algum sofá incômodo dessa maternidade enquanto esperava a hora de poder ver o meu bebê.

Perdão pela minha impertinência em achar que sabia muito mais do que você só porque passei mais horas pesquisandio sobre a saúde do meu bebê do que todas as horas em que passei em um banco de escola.

Me perdoe por achar que você não fez nada pelo meu bebê quando, na verdade, já tinha feito tudo o que podia.

Perdão pelos dias em que saí e batí a porta atrás de mim, te tratando com frieza e com desdém, querendo ver qualquer outra pessoa que não você na minha frente.

Perdoa os meus pitís, o choro descontrolado, as palavras duras, a raiva muitas vezes incontida.

Tudo isso era reflexo de um coração que batia fora do peito, fora do eixo, fora do tempo.


Mas, sabe de uma coisa?

Obrigada pela esperança de cada dia, pelas palavras de encorajamento, pelo tempinho a mais que me deixou ficar na sala, ao lado do meu bebê.

Obrigada pela caixinha de música que me deixou levar e colocar em cima da incubadora para que meu bebê pudesse ouvir um som mais doce do que os sons de todos os aparelhos ligados a seu corpinho tão pequeno.

Obrigada pelo abraço nos dias difíceis e pelas palavras de consolo que não me deixaram perder a esperança.

Obrigada por me lembrar que era Deus quem cuidava de você, do meu marido, dos meus outros filhos e de mim.

Obrigada, até, por ter dito que não tinha mais o que fazer e ter me mandado para casa, rezar. Se você não tivesse agido assim eu não teria experimentado o milagre que foi o começo da cura do meu bebê.

Obrigada porque depois de muita luta, por sua causa, o meu bebê veio para casa.

Obrigada.




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